Herói



Ao Pe Júlio Maria de Lombarde, fundador dos Padres Sacramentinos de Nossa Senhora.
Manhumirim - 8 de janeiro de 1944.

__________

Uma vez sôbre um berço de alegria,

Ouviu-se a voz profética de Maria,

Divina a dizer:

¨Este menino que hora nasce, e chora,

Há de brilhar, fulgindo mundo a fóra,

Há de o mundo vencer¨.


O menino cresceu. E a providência

Foi-lhe marcando os passos da existência,

Com infinito amor.

O menino cresceu... e a honra, e a fama,

Que o seguiam, não era mais que lama,

Pra seu viril fervor.


Andou... Fez-se padre. O triste mundo

Era pequeno para o amor profundo,

Dessa alma de Deus.

Queria ver a terra convertida

E a alma humana feita para a vida,

Subir radiosa aos céus.


E trabalhava como um herói trabalha;

Nunca mediu o peso da batalha

Na luta contra o mal.

Como o tufão que turbilhona a terra,

Assim, a fôrça mágica que encerra

Seu divino ideal.


Até que numa noite luminosa

Entre nuvens de um sonho cor de rosa

Uma voz êle ouviu:

"Ergue-te, filho, e deixa a Europa antiga,

Existe, longe, uma nação amiga,

Que a Jesus pediu".


Longe da pátria que estimaste tanto,

Atraz, atraz do mau cheio de encanto

Repousa o meu Brasil!

É lá que hás de viver sofrendo e amando

No amor sorrindo, e no sofrer cantando,

A olhar o céu de anil.


Obedecendo a voz que lhe falava

Veio, cá habitar a terra cara

A quem todo se deu.

Era tão longe... era pra cá do Oceano...

Mas, maior do que o mar, é o coração humano,

Que em Jesus se escondeu...


E a luta cessou... antes, mais dura

Era a lida tão plena de ventura,

Mas, tão cheia de dor.

A miséria, e o selvagem arredio,

A fome, a fera, o matagal e o rio,

A tristeza e o calor...


Era tudo isso, a incomparável prenda

Que o Bom Jesus, em meio a luta horrenda,

Lhe guardava com amor...

E êle, sorrindo, recebia as cruzes

Que no seu peito se tornavam luzes

Para maior fervor.


E os índios e os caboclos e os letrados,

Os pobres, infelizes, e abastados,

A todos doutrinou.

Percorreu o Brasil de Sul a Norte,

E contra Lucifer seu braço forte,

Sempre e sempre lutou.


E mais tarde... a calúnia e o ódio horrendo,

E tudo o herói vai recebendo,

Sob o olhar do céu de anil.

Porém, n'alma do povo, um grande afeto

E o nome augusto ficará no teto

Do meu grato Brasil.


Mas, qual será o nome sublimado

Deste homem tão querido e tão odiado,

Dessa alma de Jesus?

Ao pronunciá-lo o coração arde:

Padre Júlio Maria de Lombaerde,

Alma cheia de luz.


Alma de herói, porque venceu o mundo.

Alma de santo, defensor do profundo,

E, sim! alma de  pai!

Que sabe consolar o filho aflito,

Que sabe o olhar vibrar-te para o infinito,

E, dizer: "Confiai¨!


Herói, e pai e santo, há de clamar a vaga,

Hão de clamar os céus, há de clamar o mundo,

E pelo tempo em fora, esse clamor se alaga,

E cada vez mais forte, e cada vez mais fundo!


Herói - que o batalhão de satanás esmaga;

Pai - que sempre sorrí carinhoso e jocundo;

E santo que cerrou das almas tantas chagas

Recebe agora amor, por teu amor profundo.


Referve a gratidão nas almas de teus filhos,

Por quem dentro do peito amante em chama arde

Mostrando-lhes do bem os luminosos trilhos.


Há de ser santa a boa luz de teus ensinos

E povoar de heróis o mundo de covardes

A família viril de teus sacramentinos.


Padre Paschoal Rangel



Servo de Deus Júlio Maria de Lombaerde (Biografia)





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