A Importância do Trivial

 Contemplo maio se acabando com uma leve melancolia. Todo o resto do ano carrega alguma coisa de cinzento. Não é à toa que esse tempo (como direi?) - plúmbeo - leva, na liturgia da Igreja Católica, o nome meio cinzento também de "tempus per annum", ou seja, o tempo através do ano. Traduziram isso ao português por "tempo comum", ainda mais inexpressivo do que o "tempo através do ano". É o tempo em que não acontece nada, e, simultaneamente, em que acontece tudo. Pois nossa vida é feita de feijão com arroz, e não de caviar e champagne francês. É no todo dia, romântico ou seco, mas sem espetaculares relevos, que a vida rola. E é nessa vida aí, trivial, feita de alegriazinhas e sofrimentozinhos, que não é nenhum palco iluminado nem nenhum chão de estrelas, mas chão de chão mesmo - que o mundo e a existência do homem se constroem. É aí que as famílias se formam e os filhos se criam; que as lutas políticas se travam, entre mentiras, ideais sinceros, demagogia, esforço de acertar, que operários e empresários fazem brotar a riqueza das nações e, de roldão, produzem injustiças e inflações, rebeldias, greves, violências, lutas de classe, mas também pequenas e humildes dedicações, produtos morais e produtos materiais cheios de beleza e até de ternura...

(Padre Paschoal Rangel)



In, Jornal O Lutador, Maio 1988.

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