1984...
E já navegamos águas de 84. A sugestão irreprimível é o livro de George Orwell, "1984". A gente pode pensar que é impensável, que é, ao menos, inverossímil, aquela história de um programa diário de "Dois minutos de ódio", de que fala Orwell. Mas quando se assiste hoje, no Brasil, a certos noticiários ou declarações de TV, não há como duvidar de que estão servindo ódio. E por bem mais de dois minutos diários. Há programas que nos dão raiva do mundo. Vontade de sair gritando, rasgando a camisa, arrancando os cabelos.
Um Juiz de Direito me dizia certa vez, que tinha riscado da vida dele os jornais de tevê. Ele acabava aquilo, todos os dias, angustiado, arrasado, quase vomitando. Vinte minutos de angústia e ódio. Concentra-se ali, na casa do espectador, toda a violência e maldade das 24 horas do mundo inteiro. Mas é bom não esquecer que, nessas mesmas 24 horas, pelo mundo a fora, houve milhões de atos e sentimentos de ternura, de bondade, de leveza, de fé, de santidade, de fraternidade, de solidariedade, que contrapesam a maldade, que equilibram a terra e não permitem ao homem ser soterrado pelo ódio ou pela violência. Por isso é que a vida pode continuar. E não continua melhor, porque não nos mostram esse outro lado da realidade.
A bondade, a fé, o perdão, a beleza, a graça, não são momentos isolados e raríssimos, como aqueles, sem dúvida extraordinários, que até a TV acabou tendo de mostrar, de João Paulo II visitando, na prisão, a Mehmet Ali Agca, e declarando: "Falei com um irmão a quem perdoei e que desfruta de toda a minha confiança." Ou certamente um perdão muito mais difícil que o do Papa - aquele do pai brasileiro que acabava de saber que sua jovem e bela mulher e sua filhinha de colo haviam sido assassinadas por um assaltante de banco, apenas porque a menininha chorou: "No meu coração, não há lugar para sentimentos como ódio ou vingança. Essas coisas acontecem, porque Cristo, está ausente do coração dos homens". São atos tão bonitos e importantes que o estado da noosfera que, por um momento poderia ter-se partido ao menos em algum tempo, de repente recupera o equilíbrio. E com muito mais solidez e beleza do que antes.
Coisas dessas estão acontecendo mundo a fora, anonimamente, todas as horas, todos os dias. Antigamente se falava mais na comunhão dos santos, nessa invisível rede de amor e graça que faz com que "uma alma que se eleva, eleve o mundo" - uma expressão de Elisabeth Leseur. Mas aquele médico que, sem nenhuma esperança de honorários extras, passa uma manhã no CTI com um paciente até poucos dias antes desconhecido, porque este paciente teve um enfarte e podia ter outro talvez fatal, e sai de lá ainda de cara boa - esse homem equilibra o mundo. Ou aquele outro que, diante da jovem desesperada, que não queria aquela gradivez e que loucamente o aborto, dá o maior apoio moral, levanta o coração da jovem mulher, leva-a a amar o filho que carrega dentro de si e a acolhê-lo - esse médico soergue o espírito deste planeta.
In, Jornal O Lutador - 8 de Janeiro de 1984.

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